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Quarta-feira, 18 de Marco de 2026

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Passo do Pontão resgata história e projeta futuro turístico na divisa entre SC e RS

Movimento regional busca valorizar o Passo do Pontão, na divisa entre SC e RS, unindo história, integração e desenvolvimento turístico.

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Passo do Pontão resgata história e projeta futuro turístico na divisa entre SC e RS
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Entre Santa Catarina e Rio Grande do Sul, um lugar marcado por travessias antigas, decisões políticas decisivas e encontros culturais volta a ganhar atenção regional. Localizado na divisa dos dois estados, o Passo do Pontão, próximo ao marco zero do Rio Uruguai, tornou-se o centro de um movimento que une pesquisadores, lideranças comunitárias e instituições públicas em torno da valorização histórica, ambiental e turística.

Mais do que recordar o passado tropeiro, a iniciativa busca transformar conhecimento em desenvolvimento, fortalecendo a integração entre municípios catarinenses e gaúchos.

Em entrevista concedida ao jornal O Celeiro, a socióloga e professora Terezinha Fornari Carneiro e o arquiteto, ex-deputado federal e senador constituinte Dirceu Carneiro ressaltaram que o trabalho é resultado da construção coletiva do Grupo de Cooperação Passo do Pontão SC/RS, criado a partir de estudos iniciados em 2012.

Um movimento que nasceu da preocupação com o interior

Segundo Terezinha, a mobilização começou em rodas de conversa sobre desigualdades regionais e oportunidades pouco exploradas fora dos grandes centros.

A percepção de que regiões semelhantes haviam avançado economicamente ao valorizar seus diferenciais culturais e naturais levou à criação de um grupo de estudos voltado ao patrimônio histórico do território.

O projeto cresceu e, em 2019, foi incorporado ao plano regional de turismo da AMPLASC, reunindo atualmente mais de 90 participantes entre voluntários, pesquisadores e instituições.

O objetivo é estudar, preservar e divulgar elementos culturais e ambientais capazes de impulsionar o turismo e o desenvolvimento macrorregional.

Vestígios históricos transformados em potencial turístico

Ao longo dos anos, o grupo passou a mapear locais históricos ligados às antigas rotas de passagem utilizadas por tropeiros e viajantes.

Entre os exemplos estão áreas de moradia de antigos ocupantes da região, trilhas utilizadas no transporte de tropas e pontos naturais associados às travessias históricas.

Um dos casos citados por Terezinha é o sítio onde viveu a pioneira Anna Maria de Matos, que arrematou o primeiro registro do Passo do Pontão em 1849.

O local correspondia à antiga sede da Fazenda São Francisco do Umbú, que mantém o mesmo nome até hoje. Na área ainda existe a tradicional árvore de umbú trazida no período das primeiras ocupações, considerada um marco simbólico da presença histórica na região, além do Cemitério São Francisco de Assis, também associado aos primeiros moradores.

Ligada à administração do registro fiscal transferido para a região no século XIX, a arrecadação local chegou a ser uma das maiores da antiga Província de São Pedro.

A proposta é simples: sinalizar esses espaços e permitir que visitantes compreendam a importância histórica do território.

“São marcas vivas da história. Preservar é também ensinar às novas gerações o que aconteceu aqui”, afirma.

O trabalho também dialoga com projetos de turismo rural, extensão agrícola e integração institucional envolvendo EPAGRI, EMATER e associações municipais dos dois estados.

A defesa do marco zero do Rio Uruguai

Outro eixo importante da atuação do grupo é a preservação ambiental.

Recentemente, integrantes participaram de articulações para evitar a alteração da identificação da nascente do Rio Uruguai na região.

A mobilização reuniu prefeitos, especialistas e apoio jurídico externo para demonstrar a legitimidade histórica e científica do reconhecimento já existente.

Além da preservação territorial, o grupo também pretende ampliar ações educativas sobre recursos hídricos, qualidade da água e conscientização ambiental.

Outro episódio histórico reforça a relevância estratégica do Passo do Pontão ao longo do tempo. Segundo Dirceu Carneiro, durante a Revolução Farroupilha, quando os farroupilhas ocuparam o Passo da Santa Vitória, na região de Lages, o comércio econômico do Império passou a ocorrer pelo Pontão, além das movimentações militares de tropas.

Ele cita que o coronel Antônio Melo de Albuquerque, comandante de combatentes de Cruz Alta, atravessou o local em janeiro de 1840 para enfrentar Giuseppe Garibaldi, derrotando-o em Curitibanos, episódio que também ficou marcado pela prisão de Anita Garibaldi, posteriormente fugitiva.

Para Dirceu, acontecimentos como esse demonstram como o caminho foi se consolidando historicamente como uma ligação estratégica entre Rio Grande do Sul e o restante do país, transformando-se hoje também em corredor turístico internacional, utilizado por viajantes do Uruguai e da Argentina rumo ao litoral catarinense, tendo a travessia do Rio Uruguai, próxima ao marco zero, como importante referência regional.

A ponte que consolidou a integração

Se o passo marcou as travessias antigas, a ligação moderna entre os estados ganhou forma definitiva com a construção da Ponte Interestadual da Integração, inaugurada em 6 de junho de 1996.

Dirceu Carneiro acompanhou diretamente os bastidores da obra, inclusive durante sua atuação no Congresso Nacional.

Segundo ele, o projeto enfrentou resistências políticas e econômicas ao longo de décadas, principalmente por receios ligados à redistribuição de rotas comerciais entre portos.

Diversos projetos rodoviários anteriores não avançaram até que a BR-470 finalmente fosse executada.

A conclusão da ponte ocorreu após articulação parlamentar conjunta entre representantes catarinenses e gaúchos, com destinação direta de recursos para a obra.

“Reunimos parlamentares dos dois estados e direcionamos as emendas para concluir a ponte. Foi a etapa decisiva”, relembra.

A inauguração reuniu autoridades estaduais e grande participação popular.

Com o passar dos anos, a travessia consolidou-se como corredor logístico estratégico, conectando o interior aos portos catarinenses e ao polo petroquímico gaúcho.

Segundo Dirceu, o fluxo aumentou significativamente após a interrupção de outra rodovia federal, quando transportadores passaram a utilizar o trajeto e descobriram vantagens logísticas.

Hoje, o movimento intenso de caminhões é constante na região.

II Ronda da Integração marcará os 30 anos da ponte

A valorização histórica também ganhou forma prática em junho de 2025, quando o município de Barracão sediou a primeira Ronda da Integração Tropeira Passo do Pontão, celebrando os 29 anos da ponte e reunindo lideranças culturais e institucionais dos dois estados.

O encontro reforçou o diálogo interestadual e consolidou a proposta de transformar o movimento cultural em base para políticas públicas permanentes.

Agora, uma nova edição está em preparação.

A II Ronda da Integração Passo do Pontão deverá ocorrer em junho deste ano, envolvendo diretamente os municípios de Campos Novos e Celso Ramos, ampliando o alcance regional do movimento. A proposta é mais abrangente e envolve lideranças e instituições de diversos municípios integrantes das associações AMUNOR (RS), AMURC, AMURES (SC), além da região turística Vale dos Imigrantes.

A programação ainda está em construção, mas a proposta inclui debates históricos, turismo, cultura, preservação das águas e integração institucional entre municípios de Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Também participam diretamente os municípios lindeiros ao Rio Uruguai na área do projeto — Campos Novos, Celso Ramos e Barracão — reforçando o caráter interestadual da iniciativa.

Segundo os organizadores, a ronda representa uma espécie de vigília simbólica do patrimônio regional.

“A ronda é cuidar das coisas preciosas. No nosso caso, é vigiar e proteger o patrimônio cultural e ambiental do interior”, resume Terezinha.

Um impulso para políticas públicas regionais

Após mais de uma década de atuação voluntária, o grupo espera que o movimento avance para uma estrutura institucional permanente, capaz de integrar turismo, cultura e sustentabilidade em escala macrorregional.

A intenção é que associações municipais, instituições técnicas e poder público assumam a continuidade das ações.

Para os idealizadores, preservar a memória do Passo do Pontão não significa olhar apenas para o passado, mas construir oportunidades para o futuro do interior.

FONTE/CRÉDITOS: O Celeiro
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